Quando eu conheci o Daniel, a minha vida mudou completamente. Era como se eu estivesse andando nas nuvens, eu tinha finalmente encontrado o homem que tanto rezei para Deus me dar. Um amor fora do normal, que encheu o peito, que me deu coragem de enfrentar o mundo (literalmente). Decidimos que iríamos morar juntos, que iríamos envelhecer juntos, ter filhos, netos, bisnetos. Eu vi meu futuro brilhante como diamente. Não, não seria fácil, sempre soube disso. Ficar longe da família que eu amo, dos amigos, da língua, da cultura… Ficar longe da minha amada São Paulo.
Vir para cá foi o maior ato de coragem que eu poderia ter. Claro que bateu o medo de ficar sozinha, o medo do desconhecido. Quando comecei a ver a realidade da vida no estrangeiro, com um estrangeiro, o monstro era enorme, tão grande que eu nem conseguia ver o fim. Daí o sorriso dele se tornou importante, porque através do sorriso eu encontrava mais forças para enfrentar o que viesse. Os sonhos de casamento continuavam…
A realidade é diferente daqueles contos de fada que a gente cresce ouvindo. “E eles viveram felizes para sempre”… balela. Não existe o 100% feliz, porque todo relacionamento tem seus altos e baixos. E como numa montanha-russa, a gente espera que o impulso dos “baixos” tenha força suficiente para levantar o carrinho até o topo da montanha.
Hoje o meu carrinho não ganhou impulso. O Daniel acabou de dizer que não me ama mais… não o suficiente para continuar o relacionamento. Acabou… meu sonhos, o casamento, os netos e os bisnetos. E o meu coração foi violentado e estuprado, esmigalhado até que não sobrou mais nada. A realidade bateu forte novamente, mas numa foto muito mais sombria. Nunca suspeitei que ele não tivesse cuidado do amor por mim… nunca suspeitei que ele estivesse em dúvida, talvez por ingenuidade minha, mas provavelmente porque ele não teve a consideração de me contar quando o problema começou a surgir. Ninguém tem culpa de parar de amar porque ninguém escolhe quando amar… Mas a gente tem a obrigação de encontrar uma coisa boa sobre o companheiro diariamente, e assim manter a chama acesa e o amor interessante.
Junto com a minha dor veio a incerteza ainda maior: o que vai ser de mim? Da minha vida? Já tinha ouvido dizer que a gente nunca deve abandonar a própria vida em prol do outro. Nesses 6 anos, 10 meses e 25 dias eu abandonei meus próprios sonhos, a minha carreira profissional, tudo que eu conhecia por mim mesmo, que me define como Marina, para dar chance de vencer nesse relacionamento. Agora que eu tenho que voltar para a minha amada terrinha, não sei o que vai ser do meu futuro… 30 anos de idade, sem experiência na minha carreira estudantil? Quem vai me querer? O futuro parece tão violento… mais violento do que o monstro que eu vivi.
Estou tentando marcar a passagem de volta para a semana que vem… O pensamento de morte, de querer morrer, de gritar com toda a força do meu ser “burra, burra, burra”…
Eu sei que vou sobreviver…acho que vou, ao menos… Mas hoje morreu um pedaço de mim…. hoje a Marina morreu, quem escreve é a casca, o resto que sobrou. Hoje a Marina está traumatizada num nível que é difícil descrever, com raiva do Daniel por ele não ter sido sincero comigo, por não ter tido a coragem de ser honesto e de ter confiado em mim. Ele ainda pediu para sermos amigos…. não… não quero mais amizade com ele, quero deletá-lo da minha vida… quero limpar essa casa até que desapareça todos os vestígios de que um dia uma Marina viveu aqui… vou apagar todos e quaisquer vestígios dele também. Não foi só a Marina que morreu, ele matou o Daniel também… por uma questão de sobrevivência… Seguir com esse amor grandioso, potente, bonito, sincero… não dá mais. Se eu não arrancar pela raíz, nunca mais vou conseguir ser feliz.
A dor é tão imensa que eu não tenho nem forças para chorar… Aliás, não é nem a hora certa para chorar. Tenho que comprar a passagem, tenho que empacotar as minhas coisas, tenho que agilizar tudo para que eu possa ir o mais rápido possível. Tenho que correr até criar bolhas nos pés, até perder o fôlego, e assim deitar a cabeça no colo da minha mãezinha… e ouvir os conselhos dela, e sentir o amor dela, e a promessa de que um dia eu vou encontrar alguém que me queira realmente… Sonhar em casar, ter filhos, netos e bisnetos… Um homem que venha a colocar a fé no amor no meu coração… que pegue fita crepe e remende o que sobrou de mim…
Nunca imaginei que esse dia chegasse… o dia que eu dissesse adeus. Hoje a Marina morreu e não tem sequer um pedacinho em pé para contar a estória. Hoje a Marina começou a matar o maior amor da vida dela… hoje a Marina diz adeus aos amigos e amigas que me acompanharam durante anos nessa Caipirinha Sueca, só que o copo esvaziou e assim o blog terminou. E, a única coisa que resta à dizer é:
Mãe… estou voltando para casa.